[Crítica] Coringa – Joaquin Phoenix está fantástico em filme que coloca sorriso no seu rosto em momentos estranhos

*ESSA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS QUE PODEM PREJUDICAR SUA EXPERIÊNCIA NO CINEMA*


Coringa chega aos cinemas brasileiros nessa quinta-feira (03) e causou certa polêmica na mídia internacional, recebendo acusação de incentivar e influenciar atos de violência. Porém, o filme nos apresenta uma realidade crua da nossa sociedade: a falta de empatia do ser humano. E ao contrário do que disseram, o personagem não é retratado como um herói, mas sim como um homem com problemas mentais que, “sem querer”, joga mais gasolina numa chama de revolta que já existia numa cidade decadente que é Gotham. Ou seja, o mal já existe, ele só o potencializa. E esse é o Coringa.


Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é um homem infeliz que sofre de transtornos mentais, mora com sua mãe Penny Fleck (Frances Conroy), mas que tenta se encaixar na sociedade despedaçada de Gotham de alguma forma. Trabalhando como palhaço para uma agência, Arthur tenta levar sorrisos para crianças em hospitais ou até mesmo divulgando comércios de donos a beira da falência na rua, enquanto tenta iniciar sua carreira como comediante stand-up. Mas acaba descobrindo que a piada é ele mesmo. Ao se deparar com três rapazes que o começam agredir por causa da sua histérica e incontrolável crise de risos, Arthur decide reagir, mas não esperava que sua reação causasse tanto impacto na população de Gotham causando um movimento caótico em toda a cidade.

 

(Reprodução: Warner Bros.)


O filme se passa no começo dos anos 80 e foca na origem de um dos vilões mais icônicos das histórias em quadrinhos e da cultura pop. Através de um estudo de personagem, o diretor e co-escritor Todd Phillips, nos apresenta uma história inédita desse personagem misterioso, reinventando suas características que o torna distinto, de certa forma, das suas outras retratações mas a sua essência é mantida: o Coringa é doentio e não tem vergonha de seus meios violentos e se assume como tal. Isso nos traz um sentimento de tensão durante o filme e a retratação da eclosão do Coringa. Apesar de ter sido dito pelo próprio diretor que o longa seria bem diferente dos quadrinhos, a trama se apoia diretamente a família Wayne e vai além, nos mostrando a trágica perda do pequeno Bruce Wayne: o assassinato dos seus pais.


Apesar de, definitivamente, não retratar o Coringa como um herói e até mesmo anti-herói, é quase inevitável não sentir pena da condição de Arthur do primeiro ao segundo ato, onde vemos as nuances do personagem a cada fracasso. Isso se dá a performance fantástica de Joaquin Phoenix que parece estar possuído a cada frame. Sua condição física e mental é muito bem retratada com expressões que te fazem acreditar que existe algo muito errado se passando pela sua mente, ao mesmo tempo que faz o expectador se sensibilizar com sua “inocência”. Sua magreza é assustadora (de fato, tá só a capa do Batman) e fica ainda mais quando o ator se contorce como se de fato o personagem estivesse sendo possuído por uma louca dança, como em um dos momentos mais memoráveis onde, após o vermos cometer seu primeiro crime no longa, Arthur entra em um banheiro público aparentemente assustado com o que acabou de fazer. Mas, ainda vestido de palhaço após ser demitido do trabalho, começa uma dança esquisita anunciando a “libertação” do Coringa dentro de si. Phoenix consegue causar constrangimento ao soltar suas gargalhadas, que no filme é retratada como uma doença real, o afeto pseudobulbar, que o faz rir de modo involuntário em momentos inapropriados. São risadas completamente bizarras que dão ao expectador uma sensação nada confortável e podem até contagiar. Sim, você pode sentir vontade de rir junto!

 

(Reprodução: Warner Bros.)


Todd Phillips acerta em cheio na tonalidade suja do filme e, por mais que a obra tenha sido acusada de incitar a violência, não é algo tão evidente assim, mas seus poucos momentos de violência explícita, são impactantes. É possível ver a liberdade que a Warner deu a Phillips quando o diretor expõe um dos momentos em que Arthur percebe que criou um romance com sua vizinha Sophie (Zazie Beetz) na sua mente e que nada era o que parecia, demonstrando que a condição de Arthur é deveras perturbadora. Tão perturbadora quanto a Gotham City que vemos. Podemos ver uma retratação da Nova York dos anos 70 e 80 e sua ambientação suja e perversa. Não à toa, a cidade está sofrendo com uma infestação de ratos. Além disso, é indiscutível a inspiração em obras de Martin Scorsese como Taxi Driver e O Rei da Comédia, que também contam com Robert De Niro que aqui, interpreta Murray Franklyn, um apresentador de um talk show de Gotham que acaba apresentando o Coringa em uma das cenas mais impactantes onde Arthur se revela em seu programa para toda a cidade.


A fotografia do filme combina muito bem as cores do cenário com a tonalidade de cada cena e do visual do personagem e já podemos ver isso nos momentos iniciais do filme onde Arthur prepara sua maquiagem de palhaço. Igualmente, sua trilha sonora assinada por Hildur Guðnadóttir (Chernobyl) dá o tom dramático e sombrio necessário para transmitir, principalmente, os momentos mais insanos do personagem.

(Divulgação: Warner Bros.)


Insano, sujo, visceral, impactante e espetacular. Coringa marca com seu retrato social de exclusão e desigualdade, mas também pela ótima retratação de um personagem perturbado consigo mesmo e com a sociedade que, aparentemente, é tão louca quanto ele. Construído de forma brilhante, com atuações excelentes, esperamos que quebre barreiras e seja lembrado no Oscar. E, mesmo que não seja, será lembrado e discutido por muito tempo.


5

Nota: Excelente!

some text      Coringa (Joker)

⠀⠀Classificação: 16 anos

⠀⠀Direção: Todd Phillips

⠀⠀Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver

⠀⠀Ano: 2019

⠀⠀Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Douglas Hodge.

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